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PARA FAZER TEATRO

Se ainda não temos, na cidade, uma política de cultura ambiciosa e estável, temos, contudo, trabalhos individuais espertos, dignos de interesse e de espanto. Falo dos artistas e estudiosos de teatro formados e atuantes por aqui. Os diamantes estão na província.

Em Brasília, há diversos desses profissionais; vai se elaborando aí um pensamento – nada unânime, mas coerente – sobre a cena e, mais especificamente, sobre a arte de representar. Entre os pesquisadores, acha-se o ator, diretor e dramaturgo André Amaro.

Seu livro Teatro Caleidoscópio – o teatro por-fazer narra os caminhos do artista e pensador da cena ao contar a história de sua companhia, o Caleidoscópio, criada em 1994 e provida de sala própria desde 2002. O autor deduz e depura, do trajeto percorrido pela companhia, hipóteses destinadas a entender melhor a arte do palco e a incidir sobre a sua prática. Tais hipóteses, ou teses, organizam-se a partir da imagem do brinquedo criativo chamado caleidoscópio.

O brinquedo, originalmente, consistia em cilindro dentro do qual se encontrava um sistema de espelhos e fragmentos de vidro, “instrumento para criação e exibição de uma variedade infinita de bonitas formas”, segundo o definiu o físico e matemático inglês David Brewster, seu inventor em 1813. O observador contempla as imagens como quem olha pelo buraco da fechadura. Hoje, as formas e materiais do objeto são os mais diversos, mantidos os princípios básicos.

Para André Amaro, o caleidoscópio tornou-se metáfora das configurações estéticas, tão imprevisíveis quanto exatas, que o intérprete deve promover, com seu corpo e sua voz, diante do espectador. As imagens no caleidoscópio jamais se repetem de modo literal (ou são finitas, mas múltiplas); de forma similar, o ator procura compor bons desenhos corporais e vocais – definidos pela capacidade de atrair e deleitar o público – sem engessá-los em figurinos rígidos.

Vale dizer que o trabalho do ator ao longo de um espetáculo corresponde à soma das imagens que, à maneira de um caleidoscópio, ele consegue propor à inteligência e à imaginação dos espectadores. Diferentemente do brinquedo ótico, no entanto, não se trata de imagens criadas ao acaso, mas de circunstâncias determinadas por finalidades expressivas, com relativo domínio das situações no palco.

O livro alude aos conceitos por meio do depoimento, fazendo a crônica de fatos e pessoas que o autor vai enlaçando ao comentário de ensaios e espetáculos. De saída, a figura de Dulcina de Moraes. A atriz baseava-se em Stanislavski, teórico do realismo e da verdade cênica, e costumava recomendar aos alunos, enigmática: “Durmam com os personagens”. André desloca-se do teatro centrado no texto, conforme as lições de Dulcina, para o que enfatiza as habilidades do corpo, agora sob a inspiração de Ariane Mnouchkine e Eugenio Barba.

Depois de estagiar com os mestres Mnouchkine e Barba, o diretor arrisca-se a pesquisar observando a si mesmo e a seus atores. Sua percepção dos fenômenos teatrais não é aleatória, nem está restrita a cada um dos trabalhos que realiza, considerados isoladamente (o livro registra em texto e fotos as 17 montagens do Caleidoscópio até 2006). Pelo contrário, a experiência candidata-se a virar sistema e busca acrescentar algo a seu campo de investigações, descontada a dívida para com os mestres.

Diga-se que o relato não se propõe a formular, de modo pleno, teoria ou método da arte do ator; não pretende estabelecer esquemas ou roteiros exaustivos no assunto. Mas o volume reúne indicações consistentes nesse caminho, originárias da prática e da meditação sobre ela. André pertence a uma geração de intérpretes e diretores para quem o teatro é também coisa mental.

Seria possível perceber ainda outros aspectos nas idéias expostas em Teatro Caleidoscópio. O principal deles parece estar no espelhamento verossímil, legítimo, que se dá entre a prática dos espetáculos e as fórmulas teóricas. O feito e o pensado se alimentam mutuamente.

Montagens como Cascudo, com elenco numeroso e ágil, Striptease, com André Amaro e Fabiana Tenório, ou Traços, com Alice Stefânia, são efetivamente, conforme pretende o autor, “caleidoscópicas” (ele fala ainda em “ator caleidoscópico”). Esses espetáculos têm uma vivacidade que decorre da percepção nítida, musical, das relações de espaço e tempo no palco, território poético que possui leis próprias, sim, mas tão sutis e objetivas quanto as da realidade.

Veja-se também a relação ambivalente – ora de aproximação, ora de afastamento – com o texto dramático. Há momentos em que a eficácia e mesmo a pertinência do texto previamente escrito são postas em dúvida. Noutras vezes, o ator reencontra as palavras nas peças, inclusive brasilienses, encenadas pelo Caleidoscópio. A disponibilidade para a experiência pode, afinal, definir os trabalhos, que continuam.


Fernando Marques
Jornalista, doutor em literatura brasileira pela UnB. Publicou Retratos de mulher (poemas, Varanda) e Zé (teatro, Perspectiva).


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